Quando recebeu o convite para interpretar a interesseira Neli em Paraíso Tropical, Beth Goulart percebeu que teria ali uma chance para concretizar um antigo sonho profissional. Depois de 33 anos de carreira dedicados ao teatro e ao cinema, a atriz queria se estabilizar na televisão.
Se antes suas inquietações se solucionavam nos palcos, agora Beth prefere a idéia de um contrato longo, para se dedicar a personagens mais densos e aproveitar a boa fase das mulheres de 40 anos nas novelas da atualidade. "Há alguns anos, era difícil conseguir personagens densos. Agora, as novelas têm vários protagonistas e as atrizes experientes estão com mais espaço", avalia.
Beth ainda guarda um outro projeto: dirigir um longa-metragem. A atriz já tem um argumento reservado para o cinema e pretende assumir as atividades principais do filme. Desde a produção e direção até o papel de protagonista. "Uma grande idéia e vontade eu já tenho. Só falta arriscar", diz. Leia a seguir a entrevista com a atriz:
A Neli tem atitudes reprovadas pelos telespectadores mas que, em alguns momentos, fazem com que eles se identifiquem com a personagem. Como você enxerga essas atitudes e qual é a resposta do público?
O problema não é o que ela faz, mas a forma como ela faz. O amor da Neli ultrapassa qualquer limite. Mas, no fundo, ela só quer que as filhas não passem pelo que ela já passou. A Nely quer que as duas sejam mais felizes do que ela conseguiu ser. Eu não a vejo em nenhum momento como uma mãe má. Analisando a trama, a Marión, da Vera Holtz, tem intenções ruins e isso se reflete na criação que ela deu aos filhos. A Neli não, só é preocupada demais. Tanto que o público me pára na rua e elogia meu trabalho e comenta sobre as situações que são apresentadas. As pessoas me dizem que conhecem mães iguais a Neli e várias mulheres acabam se identificando. Estou adorando ter sido escolhida para interpretá-la justamente por essa verdade que é passada na novela.
Você foi escolhida pelo próprio autor, Gilberto Braga. Como foi feito o convite?
O Gilberto me ligou. Fiquei tão feliz, eu estava sem contrato com a emissora e mesmo assim ele me escolheu. Poderia ter usado alguém do elenco da Globo, alguma atriz que estivesse fora do ar mas recebendo o salário. Mas ele fez questão da minha atuação. Isso é muito gratificante. O último trabalho que fiz com o Gilberto foi na minissérie O Primo Basílio, em 1988. Tem bastante tempo, mas adorei. Eu interpretava a Leopoldina, uma personagem maravilhosa. Ela era aliada da Luíza, personagem da Giulia Gam. Eu retratava uma mulher que lutava pela liberdade feminina em uma época em que isso era praticamente impossível. Foi um dos papéis mais marcantes da minha carreira na tevê.
E a Neli, já ocupa esse espaço também?
A Neli está se sobressaindo de um jeito em Paraíso Tropical que há muito tempo eu não experimentava na tevê. É bom pegar um papel com uma trajetória assim. Sinto como se ela marcasse uma espécie de volta à televisão. É engraçado porque não tem muito tempo que fiz novela. Estive em A Lua Me Disse, como a Elvira, em 2005. Mas a novela tinha um tom mais carregado e eu acho que não consegui ter um destaque na trama. Fiquei um pouco apagada.
Por quê?
Era um texto maravilhoso, mas a trajetória da Elvira ficou muito presa à ambição, retratando o processo do mensalão. Ela era mulher do Armando, que era interpretado pelo Giuseppe Oristânio. Na trama, ele era marqueteiro de um deputado envolvido em um esquema de desvio de verba pública. A idéia, inicialmente, era legal, mas achei que estava um pouco gratuita. Ficou mais pelo efeito do que pela causa. Tanto que o final da personagem foi ser comida por um leão. A Neli não, ela é mais naturalista. Por mais que você reprove algumas atitudes, entende um pouco o porquê dela fazer aquilo.
Que personagens mais te cativaram ao longo desses 33 anos de carreira?
Fiz tantos papéis bons, mas a maioria deles no teatro. Gosto muito de interpretar personagens de época, com alguns aspectos históricos. Na tevê, a Leopoldina, de O Primo Basílio, é uma personagem pela qual tenho carinho. Mas meu melhor momento foi mesmo em 1981, quando fiz par com o Lauro Corona na novela Baila Comigo. Fazia a Débora, uma jovem criada na Europa que se apaixonava por um carioca pobretão. Ele a levava para todas as aventuras da vida no Rio. Foi um casal que deu muito certo.
Suas memórias mais fortes vêm do teatro e você ficou alguns anos afastada da tevê. Por que se dedicou mais ao palco?
Isso foi acontecendo naturalmente. O teatro está mais ao nosso alcance. Se você realmente tem interesse em fazer um projeto, batalha o patrocínio sem se sujeitar à escolha de ninguém. Depende muito mais da sua própria vontade do que de qualquer outra coisa. Na tevê é diferente, as pessoas podem preferir outros artistas ou aproveitar o elenco que já é contratado das emissoras.
Durante esse tempo, você se sentiu mal aproveitada na televisão?
Só tive contrato com a Globo por três anos, logo depois que terminei de gravar Baila Comigo. De lá pra cá, nunca mais a emissora propôs assinar por um tempo longo comigo. Então, caminhei com minhas próprias pernas. A tevê não investiu em mim e eu decidi, naquela época, não investir em tevê. Acabei me ocupando com outras coisas e me dediquei mais ao teatro. Na época tinha algumas inquietações, queria mais do que o veículo estava disposto a me dar. E o teatro e o cinema me deram.
Hoje como você se sente em relação a isso?
Agora isso já está solucionado. Estou em uma nova fase da minha carreira, mais madura. Fiz alguns trabalhos na tevê, contratada por obra. Adorei fazer a Lidiane em O Clone, por exemplo. Achei até que poderia ter rolado ali uma conversa sobre um contrato longo, garantir minha estabilidade como atriz. É claro que eu adoraria ter participado de projetos mais audaciosos, como era O Primo Basílio e como é a Neli hoje. Tenho esperança de que alguma coisa bacana aconteça depois que eu terminar de gravar Paraíso Tropical. De repente, sai uma conversa com a emissora. Teria prazer em assinar um contrato longo. E hoje a situação é diferente, as mulheres da minha idade conseguem papéis fortes nas novelas, chegam a ser protagonistas.
Você estrelou uma novela na Band, O Campeão. Na época, a trama passou por algumas modificações e a trajetória dos personagens foi alterada. Como foi essa experiência?
Não foi muito agradável. Fui chamada pela TV Plus, que era uma produtora independente, e a Band só exibia. Nem tive contato com profissionais da emissora. No início, fiquei empolgada porque o elenco era fabuloso e seria a primeira novela do Ricardo Linhares. Mas aí a Globo acabou pegando ele e o Mário Prata assumiu. Ele é um excelente autor, longe de mim criticar seu trabalho. Mas o Mário seguiu uma linha completamente diferente da que estava prevista. Eu interpretava uma mulher que tinha o filho roubado e ficava 15 anos fora do Brasil. Quando ela voltava, ainda tentava encontrar o menino. Essa era uma história legal e até hoje as novelas usam essa estratégia da mãe que busca um filho. Mas o Mário tem aquela visão mais anarquista dele e preferiu optar por desenvolver bem o lado do futebol. Para quem estava fazendo foi um pouco frustrante.
Herança genética
Filha de Paulo Goulart e Nicette Bruno, Beth cresceu convivendo com artistas que freqüentavam sua casa e assistiam aos espetáculos que a então criança montava com os amiguinhos. Ela aproveitava os almoços de domingo para inventar peças que divertiam as visitas e faziam com que sua vocação artística se destacasse. "O mais engraçado era que eu chamava as crianças, descobria o que cada uma fazia de bom e dirigia tudo. Chegava a cobrar ingresso das visitas", lembra, apontando que dessa forma vivenciava todas as etapas da montagem de um espetáculo teatral.
Não demorou muito para que os convites começassem a aparecer. Até que um dia, quando estava com 15 anos, Antônio Abujamra entregou a Beth o texto de Os Efeitos do Raio Gama nas Margaridas do Campo e pediu que ela pensasse com calma se gostaria de estrear no teatro ou não. Apesar do medo, a atriz resolveu aceitar a oferta quando descobriu que sua mãe e a avó, Eleonor Bruno, fariam o espetáculo. "Depois de um tempo, minha irmã, Bárbara Bruno Goulart, também entrou no elenco. Virou uma peça de família", recorda. O espetáculo ficou em cartaz por dois anos.
Gosto pelo humor
Mesmo com as inquietações e os conflitos de sua personagem, Beth faz questão de dar um tom engraçado a Neli em Paraíso Tropical sempre que pode. Para a atriz, essa é uma maneira inteligente de explorar o lado naturalista da trama e deu certo em O Clone. "A Lidiane vivia um drama enorme, por seu ciúme doentio do marido, mas as pessoas se divertiam com as cenas dela. Acho que esse lado desesperado das duas personagens é propício para essas brincadeiras", opina. Apesar disso, Beth não esquece de mostrar nas cenas o vazio que, segundo ela, preenche o interior da personagem. Para a atriz, Neli acredita que a vida está em débito com ela. "Tento transparecer essa pontinha de dor mesmo quando a cena é cômica. Acho importante ela ter essa marca", diz.
Trajetória televisiva
Papai Coração (TV Tupi, 1976) - Irmã Carolina
Éramos Seis (TV Tupi, 1977) - Lili
Roda de Fogo (TV Tupi, 1978) - Paula
O Direito de Nascer (TV Tupi, 1978) - Isabel Cristina
Como Salvar Meu Casamento (TV Tupi, 1979) - Sílvia
Marina (Globo, 1980) - Fernanda
Baila Comigo (Globo, 1981) - Débora Gama
Sétimo Sentido (Globo, 1982) - Helenice Rivoredo
Louco Amor (Globo, 1983) - Carla
Marquesa de Santos (Manchete, 1984) - Benedita
Selva de Pedra (Globo, 1986) - Cíntia Vilhena
O Outro (Globo, 1987) - Marília
O Primo Basílio (Globo, 1988) - Leopoldina Quebrais de Noronha
Olho por Olho (Manchete, 1988) - Paula
Riacho Doce (Globo, 1990) - Helena
Perigosas Peruas (Globo, 1992) - Diana
O Mapa da Mina (Globo, 1993) - Tânia Moraes
A Idade da Loba (Band, 1995) - Otília
O Campeão (Band, 1996) - Maria Isabel Caldeira
Malhação (Globo, 1997) - Lígia
O Clone (Globo, 2001) - Lidiane Valverde
A Lua Me Disse (Globo, 2005) - Elvira
Paraíso Tropical (Globo, 2007) - Neli
Link: http://exclusivo.terra.com.br/interna/0,,OI1705934-EI1118,00.html