No fim da temporada de Cauby, Cauby!, depois de lotar por mais de oito meses teatros do Rio, de São Paulo e Belo Horizonte até março deste ano, o ator Diogo Vilela ouviu de amigos e de sua equipe: "Você vai montar o Cauby em versão pocket, viajar pelo país e ficar milionário, né?". "Não", sentenciou o intérprete do cantor Cauby Peixoto. "Agora, eu vou fazer Otelo". Também foi logo anunciando que, de agora em diante, será o diretor de suas próprias montagens.
"Todo mundo quase caiu para trás", lembra Vilela, que não vai interpretar o protagonista, mas o maquiavélico Iago. "Saímos de cartaz com casa cheia, mas já não tínhamos verba para a manutenção. Era arriscado continuar. Acharam que viajar com uma versão menor do espetáculo seria o caminho, mas não adianta: sou um cara inquieto. Já estava cismado com Otelo, de Shakespeare. Tentaram me dissuadir, mas não teve jeito".
Com 50 anos recém-celebrados e 37 de carreira, Vilela não é só inquieto, mas obsessivo e estudioso. Bem-sucedido na TV, tem tranqüilidade financeira para se lançar em projetos ambiciosos nos palcos.
Para interpretar Cauby Peixoto, que lhe rendeu o prêmio Shell de Melhor Ator, submeteu-se a três anos de aulas de canto com o professor Victor Prochet. O protagonista de Diário de um louco, de Nikolai Gogol, de 1997, fez com que ele se internasse em um hospício, durante um tempo, para ver como é.
Ao ser convidado a ler os solilóquios de Otelo e Iago num evento para intelectuais em Curitiba, veio a paixão por Otelo, o mouro de Veneza (1604). Tratou então de arrumar espaço na estante para as obras que discutem a tragédia do general mouro, traído pelo alferes Iago e pelo próprio ciúme. Leu Shakespeare - Uma vida, de Park Honan; A linguagem de Shakespeare, de Frank Kermode; Shakespeare, nosso contemporâneo, de Jan Kott, entre outras.
"Percebi que não importa o que vou montar, desde que tenha qualidade. E, para isso, só estudando muito. É o que me dá prazer, diz o ator, que, ano passado, foi conferir em Londres a performance do celebrado Ian McKellen, na pele de Iago, com a Royal Shakespeare Company.
"Já havia estudado Shakespeare para a montagem de Hamlet (em 2001, com direção de Marcus Alvisi), mas agora procuro me especializar em Otelo.
Para isso, chamou dois jovens formados em literatura inglesa, Leonardo Marona e o João Gabriel Carneiro, para fazer a tradução. A cada semana, eles traziam uma parte, que era lida por Vilela, interpretando todos os personagens, diante da equipe.
"É essencial que a montagem não fique aquém da complexidade da obra", defende o ator. "Iago é um personagem complexo, para quem a emoção é sinal de fraqueza. Ele se guia pela razão".
Vilela também é o produtor de Otelo. A partir de 1990, com Solidão, a comédia, espetáculo solo com direção de Marcus Alvisi, começou a carreira de produtor - hoje, são nove montagens de sucesso da Bardo Produções Artísticas.
Se depender dele, Otelo - em fase de captação - estréia em abril do ano que vem, no palco do Sesc Ginástico, no Centro. Promete ser um marco na carreira do ator e produtor, que, pela primeira vez, vai se dirigir.
Como diretor, guarda boa lembrança de Jornada de um poema (2001), que venceu o prêmio Ibeu de Teatro e era estrelada por Glória Menezes. Mas prefere esquecer a direção de Elis, a estrela do Brasil (2002).
"Foi uma catástrofe de crítica. Mas a questão é que eu sempre vi as cenas que fazia, como se estivesse de fora. Também já discordei de diretores com quem trabalhei, na forma de conduzir o espetáculo. De agora em diante, pretendo sempre dirigir os meus trabalhos, ou outros em que eu não esteja em cena, mas me despertem paixão. Já foi dito que Iago é o grande diretor de Otelo, porque é quem arquiteta toda a trama que vai se desenrolar depois".
Este mês, Diogo Vilela começa a visitar empresas para conseguir patrocínio. Começa também a escalar o elenco - serão 16 atores - e o resto da equipe técnica. Já fez uma primeira leitura, em sua casa, e tem uma outra agendada para o fim do mês. Com sorte, sairá dela com seu Otelo e sua Desdêmona.
"Chamei o Lázaro Ramos para a leitura. Gostaria muito que aceitasse fazer Otelo. Apesar de ser jovem para o papel, é um ator de muita profundidade", avalia.
Para interpretar a injustiçada Desdêmona, Vilela quer chamar a jovem Marcella Rica, 16 anos, que fez uma participação (que ainda não foi ao ar) no seriado de humor Toma lá, dá cá, no qual o ator vive o metódico dentista Arnaldo.
"Ela é uma atriz do Tablado da qual nunca havia ouvido falar. Fiquei surpreso com sua atuação e tive uma intuição de que seria boa para o papel. Vamos prepará-la para a leitura".
O cenógrafo será o premiado Ronald Texeira, mas o ator já sabe o que pedir a ele: a simplicidade de um praticável que pode se transformar ao longo da encenação.
Diogo Vilela, que estará nos cinemas em breve em A guerra dos Rocha, com direção de Jorge Fernando, já trama um outro projeto, que pode coincidir com a temporada de Otelo. Além de produtor, diretor e ator, planeja se lançar como autor.
"Tenho um texto, com nome provisório de Uma nova peça, que pretendo mandar para concursos de dramaturgia. Quando escrevi, estava lendo Pirandello e Nietzsche. Fui inspirado pelo teatro e pela filosofia".
Link: http://exclusivo.terra.com.br/interna/0,,OI2083516-EI1118,00.html