A soberania da Globo foi ameaçada em 2007. Além de perder parte de seus atores e jornalistas para a Record, a emissora também disputou a audiência com uma rival cada vez mais feroz em conquistar seu lugar, principalmente na produção de novelas.
Neste ano, a Record estreou sua 10ª produção da nova safra de dramaturgia e se firmou com um núcleo de expressivos diretores, casting e autores. No entanto, ainda não conseguiu desbancar a Globo, que quase sempre se destaca com personagens inesquecíveis em novelas.
Com o gingado de Bebel, de Camila Pitanga, por exemplo, Paraíso Tropical caiu na boca do povo e se sobressaiu em vários núcleos assinados pelo sempre charmoso texto de Gilberto Braga. "Sempre trabalhei glamourizando meus textos. Devo isso à Janete Clair. Todas as minhas novelas são uma homenagem a essa mulher que me ensinou tudo", saúda Gilberto, que ganhou como Melhor Autor na eleição de Melhores & Piores de TV Press.
A Globo também fez bonito no Jornalismo este ano, com investimento em novas tecnologias e profissionais. Mas quem chamou mais atenção por trás da bancada foi Ricardo Boechat, da Band, com uma forma mais reflexiva de apresentar as notícias no Jornal da Band. Ele foi escolhido como Melhor Apresentador. "Sou um conversador com 40 anos de praia no Jornalismo. Neste jornal, existe vida inteligente além do teleprompter. Se ele pifar, não interfere no andamento da informação", valoriza Boechat.
Mas o ano não teve muitas inovações no Jornalismo. No entanto, a reportagem ganhou novo fôlego com os especiais de Profissão Repórter, da Globo, criado e comandado pelo jornalista Caco Barcellos e justamente eleito Melhor Produção Jornalística.
Já do outro lado da notícia, principalmente quando as celebridades são retratadas com muito humor, o Pânico na TV atraiu os holofotes com a irreverência que há tempos não se vê no Casseta & Planeta, Urgente!. Os que preferem a abordagem tradicional optam mesmo é pela A Grande Família. "O segredo é nunca se acomodar e sempre procurar a novidade a cada cena", entrega Marieta Severo, intérprete da carismática Nenê. A produção é considerada a Melhor Série Nacional há oito anos consecutivos.
Olimpo paradisíaco
Pela primeira vez nesses 18 anos de premiação, a gangorra quase ficou equilibrada na dramaturgia televisiva. Mas o sucesso de Paraíso Tropical, de Gilberto Braga, conseguiu driblar a audaciosa investida da Record com Vidas Opostas, de Marcílio Moraes. A novela, que abordou com bastante realismo o cotidiano e a violência das favelas, desbravou um novo panorama da dramaturgia na TV, que começa a dar sinais que se livra da hegemonia global.
"Este ano foi importante sobretudo porque solidificou a dramaturgia fora da Globo. Tanta repercussão numa novela em outra emissora merece ser analisada porque não é fácil de se ter", orgulha-se Marcílio. "O público já está cansado de velhas fórmulas. Vidas Opostas foi uma novela que ousou", analisa Alexandre Avancini, diretor da trama. "Fugimos dos clichês como gente ouvindo atrás da porta, golpes da barriga, quem matou, noivas que fogem do altar e exames de DNA", exemplifica Marcílio.
No entanto, Paraíso Tropical, chamou atenção pelo enfoque diferenciado do cosmopolita bairro de Copacabana, no Rio. Dennis Carvalho - eleito Melhor Diretor - mostrou uma contraditória Copacabana explicitada pela prostituição das meninas do calçadão e foi brindado pelo rebolado moreno de Camila Pitanga, que ganhou na categoria de Melhor Atriz com sua audaciosa Bebel.
"Minha carreira na TV foi antes e depois da Bebel. Foi com ela que quebrei meus preconceitos. As pessoas passaram a me ver de outra forma", comemora a atriz, que passou o ano inteiro balbuciando "cueca maneira" sempre que se deparava com o ar canastrão do vilão Olavo, seu amante vivido por Wagner Moura.
Depois de atrair todas as atenções como o sórdido executivo, Wagner ainda fechou o ano com o sucesso explosivo do valente Capitão Nascimento, de Tropa de Elite. A popularidade foi tamanha que o filme foi satirizado em diversos programas de humor. "Não pensava que fosse me adaptar tão bem à TV. Ela tem me ensinado muita coisa, como saber lidar com a rapidez das cenas", avalia Wagner.
Outra aposta na dramaturgia este ano foi a estréia de Dance Dance Dance, da Band. Ao arriscar uma trama musical na carona do sucesso High School Musical entre crianças e adolescentes, a emissora - que vem de uma boa experiência com a bem-sucedida Floribella - passou a investir em folhetins musicais. "Esse gênero também foge do lugar-comum. É outro mercado que se abre na TV", anima-se Juliana Baroni, que interpreta Sofia, protagonista da produção.
Informação diferenciada
O Jornalismo televisivo não teve grandes surpresas este ano. Limitados a formatos antiquados de reportagens, às velhas bancadas e uma estrutura engessada, na maioria das vezes a notícia na TV nâo protagonizou mudanças. Uma boa surpresa foi a apresentação de matérias mais aprofundadas no noticiário matinal Bom Dia Brasil, da Globo - eleito o Melhor Telejornal de 2007 pelos editores que publicam TV Press. Os apresentadores Renata Vasconcellos e Renato Machado fazem comentários coerentes e fogem da mesmice ao consolidar um estilo mais informal no comando da produção.
Mas nem só a Globo fez bonito na notícia. O âncora Ricardo Boechat, que ganhou como Melhor Apresentador de Telejornal, também chamou atenção este ano no comando do Jornal da Band. Ao lado de Joelmir Beting e Mariana Ferrão, Boechat imprimiu personalidade ao noticiário, através de comentários ousados e com liberdade de opinião, qualidades cada vez mais raras na TV. Essa iniciativa trouxe um perfil coloquial para o Jornalismo da emissora. "Procuramos valorizar o ser humano, ouvir todos os lados e fugir dos órgãos oficiais apenas. Estamos fartos da interferência dos porta-vozes. Quero a realidade mais simples na notícia. Quero a clareza", destaca Boechat.
Num ano de grandes tragédias, como o acidente aéreo da Tam, e de visitas ilustres, como do Papa Bento XVI e do Presidente Bush, além dos jogos Pan-americanos, o Profissão Repórter, da Globo, primou por abordar assuntos cotidianos de forma ampla e original. Coordenada por Caco Barcellos, a produção criada pelo jornalista "forma" jovens profissionais da imprensa e chegou a ganhar especiais.
"Não temos apenas um ou dois lados da notícia, mas vários ângulos. O interessante de mostrar grandes reportagens é que interferimos muito menos na notícia", valoriza Caco.
Ameaça global
A linha de shows foi um dos carros-chefes da Record em 2007. Tudo começou quando a emissora passou a disputar com o SBT e a Globo na guerra dominical com Tudo É Possível, apresentado por Eliana. Logo depois, veio o Show do Tom, que diversas vezes se manteve em primeiro lugar na audiência de domingo.
Já nas manhãs da Record, quem costuma ficar em primeiro lugar é o Hoje Em Dia, com uma linguagem mais coloquial e irreverente na apresentação da bela Ana Hickmann com Britto Jr. e Edu Guedes. Diante de um horário onde nas demais emissoras são exibidos desenhos e programas infantis, a produção do trio liderou a eleição como Melhor Programa de Variedades.
Outro acerto da Record tem sido a irreverência do Pânico na TV - Melhor Produção Humorística -, além de O Aprendiz 4 - O Sócio, comandado pelo empresário Roberto Justus e considerado o Melhor Programa de Competição. "O que mais comemoro é o programa ter estreado para a classe A e hoje ser visto por todas as classes sociais. Enquanto tiver boas e novas idéias, ele fica cada vez mais popular", torce Justus.
Nem tão popular, mas cada vez mais irreverente, tem sido o Altas Horas, apresentado nas madrugadas por Serginho Groisman. Nem mesmo o fato do programa ter começado a convidar artistas menos sofisticados musicalmente, fez com que a produção da Globo fosse novamente eleita Melhor Programa de Auditório. Cada vez mais contundente ao provocar a platéia com assuntos polêmicos e pertinentes, o apresentador consegue "domar" os adolescentes e passar bons exemplos.
"Busco no mínimo estar bem informado para manter a fidelidade do público. Fico abismado quando vejo apresentadores de programas de auditório que só anunciam. Você tem de ser crítico e jornalístico sempre", enumera Serginho.
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