Marcello Antony anda irritado com a televisão, pois acha que ela não tem conteúdo. "Se você olha a programação da tarde da TV, está perdido. É só fofoca, um querendo ferrar o outro", reclama.
Esse foi, inclusive, um dos motivos alegados que o levaram a passar uma temporada fora com toda a família, nos Estados Unidos. O ator vai ainda mais longe ao assumir que já pensou em deixar de fazer novelas, cansado do mundo que ronda o universo dos atores.
Mas voltou atrás porque não sabe o que fazer além de atuar. "Já pensei em abandonar tudo isso, mas gosto de ser ator. Só é uma pena que as pessoas não se aprofundem, não leiam", diz Antony.
Prestes a estrear como o correto médico Daniel, na próxima novela das seis Ciranda de Pedra, Marcello muda um pouco o tom e se diz contente com mais uma boa oportunidade de trabalho em mãos.
Ele é um dos atores que encabeça o elenco da trama. Quando foi convidado pela diretora Denise Saraceni, não hesitou em aceitar o papel. "Adorei o projeto da novela, o meu personagem, e já tinha trabalhado com a mesma equipe em Torre de Babel e Belíssima", argumenta o ator.
No folhetim de Alcides Nogueira, além de viver uma conturbada história de amor com a personagem de Ana Paula Arósio, Antony interpreta um tipo de profissional que preza por um trabalho social, atendendo pacientes em comunidades carentes. E esse é um dos motivos que mais o atraiu. "Gosto de bons papéis. Quero fazer um trabalho de qualidade em meio a tanta superficialidade que há na TV", afirma.
Você já interpretou alguns bons-moços na TV. O que o personagem Daniel, que você vive em Ciranda de Pedra, tem de diferente?
Acho que o interessante é o fato de interpretar um médico que tem uma relação muito forte com seus pacientes. Isso deve chamar até mais a atenção do que a história de amor que norteia esse papel. O Daniel é muito íntegro. E até a mulher que é o grande amor de sua vida, a Laura, de Ana Paula Arósio, ele vai passar a tratar como paciente. Vou interpretar aquele profissional que vai atender os pacientes na favela, sai com uma maleta repleta de remédios para atender uma comunidade carente.
Como você buscou se preparar para esse trabalho?
É a primeira vez que interpreto um médico, mas me apoiei basicamente no texto para compor esse personagem. Dráuzio Varella também foi uma inspiração para mim. O lado social do trabalho dele, como ir até comunidades na Amazônia para tratar as pessoas, é uma referência. O que não quer dizer que vou imitá-lo. Até o pediatra dos meus filhos me serviu de exemplo. É um profissional das antigas, com um método conservador. Nas cenas em que tenho de simular alguma aplicação de injeção ou algo de gênero, há uma médica no estúdio me ajudando.
Você coleciona mais mocinhos que vilões. Sua imagem funciona mais como herói?
Acho que tanto faz. E tendo um bom texto, uma boa direção e uma boa equipe, é satisfatório fazer o mocinho ou o vilão, não vejo diferença. O que acontece é que o público tem a necessidade de definir quem é vilão e quem é mocinho, mesmo se o personagem não se encaixa em uma dessas nomenclaturas. Porque isso é um clichê básico de novela. E a partir do momento que tacham um ator como mocinho, ele é visto como o super correto. Não faz nenhum mal, não xinga, não cospe, não espirra e não faz nada. É alguém perfeito. E pessoa perfeita assim não existe.
A imagem de mocinho ou de galã incomoda você?
A imagem de galã não me incomoda, não. Ou melhor, não difere em nada para mim. É engraçado porque acho que não tenho nada dessa coisa de galã. Mas se as pessoas me vêem assim, tudo bem, é melhor do que me enxergarem como um canalha. É a velha história do rótulo. As pessoas precisam rotular. Mas só veste a camisa quem quer.
Ciranda de Pedra é uma novela de época e você já fez outros trabalhos do gênero como Terra Nostra e Um Só Coração. Esse tipo de produção tem um gosto especial?
Adoro fazer novela de época. E como venho de vários folhetins contemporâneos, estava com saudades. Na verdade, o bom mesmo é variar. Dá mais trabalho fazer uma trama de época, o que não quer dizer que seja mais difícil. É super prazeroso. Mas se a gente for parar para pensar, em Ciranda de Pedra, por exemplo, que se passa em 1958, o meu personagem tem 43 anos.
Isso quer dizer que ele nasceu em 1915. Essa informação não pode se perder. Mas aí com toda a superficialidade do mundo de hoje, as pessoas vão acompanhar a novela das seis e não param para pensar que o personagem nasceu em 1915. É complicado mostrar isso para a dona Maria que mora lá no Acre. A gente tem de ser mais cuidadoso. É um trabalho de composição mas é preciso encontrar o meio termo para não ser radical e agradar esse público. Hoje os pensamentos são outros. O clima é de superficialidade.
Como assim?
São histórias como o caso da menina Isabela, o escândalo dos dossiês. Se você olha a programação da tarde da TV, está perdido. Quem não tem TV a cabo está sem saída. É só zapear todos os canais da TV brasileira do meio-dia às seis da tarde e ver o que eles exibem. É só fofoca, um querendo ferrar o outro, uma realidade de louco.
E um monte de gente da imprensa vive disso. Mas não posso querer fugir. Tenho de aceitar como está. É o meu trabalho e tenho de divulgar. Vou continuar freqüentando coletivas de novela por muito tempo, ouvindo as mesmas perguntas e respondendo. Se as pessoas mergulhassem profundamente nas coisas, lessem mais, seria diferente. Só que ninguém lê.
O que você está lendo atualmente?
Acabei de ler O Médico Doente, do Dráuzio Varella, até para me ajudar neste trabalho. Mas o que quero dizer quando falo que a programação da tarde na TV não tem nada é que 80% da população do país só tem isso. Então as pessoas não têm conteúdo, ficam ocas e reféns dessa loucura toda que é armada.
Foi para fugir dessa loucura que você resolveu passar uma temporada nos Estados Unidos recentemente?
Também. É sempre bom viajar para ver o que está acontecendo nesse país. E é muito pesado. Fiquei fora e quis me alienar totalmente do que estava acontecendo no Brasil. Quando voltei, foi uma porrada.
E por que você voltou?
Porque tinha um bom trabalho, ganhei um bom personagem. Todo o elenco ficou um mês inteiro passando texto, construindo, como se fosse no teatro. A minha intenção é mostrar um trabalho de qualidade em meio a toda essa superficialidade que apontei. Quando a Denise Saraceni me disse como ia ser a novela, topei fazer na hora.
Em algum momento você já cansou de fazer novelas?
Já pensei em abandonar, largar todo esse mundo que é muito louco. Mas gosto de trabalhar como ator e acho que ainda tenho um caminho longo na carreira.
Nunca pensou em fazer outra coisa da vida?
Vivo pensando, mas não sei o quê. Eu quero mesmo é trabalhar e ver meus filhos bem cuidados. Isso é o que me leva a buscar tudo isso.
Aproveitamento máximo
Desde que estreou na Globo em 1996, na novela O Rei do Gado, Marcello Antony praticamente emendou um trabalho no outro. Na primeira fase do folhetim de Benedito Ruy Barbosa ele interpretou o personagem Bruno Berdinazzi e não demorou para ganhar a oportunidade de fazer uma novela inteira, que foi Salsa e Merengue, ainda no mesmo ano.
Em 12 anos de emissora, Ciranda de Pedra é a 11ª novela que o ator faz na TV Globo. Mas fez também minisséries e várias participações especiais. "Se pegarmos a era Projac, devo ser o cara com maior aproveitamento na casa. Não fujo de trabalho", gaba-se o moço.
Ao recordar mais de uma década de trabalho na TV, Marcelo não gosta de falar sobre personagens que guarda com mais carinho. Mas não nega que alguns foram mais especiais para o público, como Marco Antonio, de Terra Nostra, ou Sérgio, de Mulheres Apaixonadas.
O ator é enfático ao dizer que o dia-a-dia de gravações de uma produção jamais o incomodou. "Eu tenho prazer em fazer bons trabalhos. E graças a Deus eles têm aparecido", avalia Antony.
Alto grau de exigência
Não é só em relação à programação televisiva que Marcello Antony demonstra estar insatisfeito. Ele anda bastante exigente também com o teatro.
O ator, aliás, iniciou a carreira nos palcos, aos 26 anos. Cursou a tradicional CAL - Casa das Artes de Laranjeiras - no Rio de Janeiro. Entre os espetáculos em que já participou estão Desgraças de uma Criança, de Wolf Maya, e Ponto de Vista, de José Possi Neto, no qual atuou ao lado de Beatriz Segall.
Apesar de assumir que tem muitas saudades de voltar a fazer teatro, o ator não quer se sujeitar a qualquer projeto. "Quero encontrar um texto que eu tenha vontade de falar", afirma Antony.
Para ele, só o prazer de estar à frente de uma boa peça compensa. "Ir todos os finais de semana para falar as mesmas coisas para as pessoas, tem de ser com um trabalho muito bom", explica.
Trajetória Televisiva
# O Rei do Gado (Globo, 1996) - Bruno Berdinazzi
# Salsa e Merengue (Globo, 1996) - Eugênio
# Torre de Babel (Globo, 1998) - Guilherme
# Terra Nostra (Globo, 1999) - Marco Antônio
# Um Anjo Caiu do Céu (Globo, 2001) - Maurício
# Coração de Estudante (Globo, 2002) - Leandro
# Mulheres Apaixonadas (Globo, 2003) - Sérgio
# Um Só Coração (Globo, 2004) - Rodolfo
# Senhora do Destino (Globo, 2004) - Viriato
# Belíssima (Globo, 2005) - André
# Paraíso Tropical (Globo, 2007) - Cássio
# Ciranda de Pedra (Globo, 2008) - Daniel
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